terça-feira, 17 de novembro de 2009

Aula 17.Nov.2009 - "Young adulthood"

Muita da produção de investigação nacional e internacional, no domínio da Psicologia, tem sido realizada com base em amostras de jovens adultos, mais concretamente, alunos universitários (...) Associada à composição de amostra com base em alunos universitários no domínio da investigação com jovens adultos, surge o criticismo às extrapolações de resultados. Ao confundir-se jovem adulto com aluno universitário, está a generalizar-se o que é próprio e representativo de uma população ainda privilegiada do ponto de vista sócio económico e sócio cultural, a uma população demasiado heterogénea (do ponto de vista educacional, por exemplo) e que contempla, aliás, uma balização etária algo difusa (15-21? 18-25?). Por outras palavras, ao utilizar amostras de alunos universitários, poder-se-á correr o risco de generalizar – nas dimensões cognitivas, comportamentais, afectivas - o que é próprio de uma minoria.

De qualquer modo, por serem aqueles que mais tempo irão experenciar o clima de incerteza característico da Hipermodernidade, constituem-se como população alvo em diferentes dimensões, daí o seu interesse científico.

Tendo sido referenciado como realidade emergente por K. Kenniston (1973) e por Arthur Chickering (1993), Bynner e Arnett têm-se destacado, mais recentemente, na atenção dada ao conceito de "young adulthood" ("jovem adultícia" em português).

Com base no artigo de Arnett (2006) (http://web.ebscohost.com/ehost/pdf?vid=8&hid=111&sid=0d489fb3-650b-4920-a8ef-1144dc2be92b%40sessionmgr10), p.f. apresentem as vossas considerações críticas sobre o conceito apresentado pelo autor de "Emerging Adulthood".

9 comentários:

  1. O conceito "emerging adulthood" apresentado por Arnett acrescenta uma nova etapa no ciclo desenvolvimental humano. Não é a primeira vez que tal acontece, pois a adolescência é uma "invenção" que surgiu no seguimento da revolução industrial. Antes desse período, os seres humanos passavam da infância para a idade adulta, sem passarem por um período de moratória. Contudo, as condições sócio-económicas propiciaram novas condições para o desenvolvimento humano, o que se traduziu pela emergência da adolescência.
    Actualmente, a nossa sociedade em poucos pontos coincide com a sociedade da revolução industrial. Estamos, de acordo com Bauman, na modernidade líquida, uma época de difusão caracterizada por uma profunda incerteza e instabilidade. Este contexto sócio-económico tem implicações no desenvolvimento humano, dificultando a entrada na idade adulta.
    Para esta nova etapa do ciclo vital contribuiu também o desenvolvimento do ensino superior e a entrada mais tardia no mundo do trabalho. Desta forma, os jovens, antes de atingirem a idade adulta, experimentam um novo período de moratória e exploração, no que respeita ao seu percurso vocacional e ao estabelecimento de relações afectivas. Contudo, os percursos de vida nesta etapa são distintos devido à elevada heterogeneidade neste período. Esta heterogeneidade é ainda mais notória quando se compara diferentes sociedades. E apenas podemos aplicar este novo conceito a sociedades industrializadas, pois em muitas sociedades tradicionais, nem sequer se verifica a passagem pela adolescência.
    De qualquer forma, os constrangimentos sociais, económicos e políticos têm impacto em todas as pessoas, qualquer que seja a etapa desenvolvimental em que se encontram (se é que se pode falar de etapas...). Não são apenas os jovens que revelam instabilidade laboral e relacional. A proliferação de empregos precários, a maior prevalência do divórcio, a diminuição da natalidade, entre outros factores, mostram que a incerteza e a instabilidade estão a ocupar todo o ciclo vital. Será que podemos imaginar uma nova conceptualização do desenvolvimento humano, em que a chegada à idade adulta se torna um processo cada vez mais complexo?
    E mais. O optimismo que Arnett afirma ser característico dos jovens, provavelmente, estará numa fase de decadência, já que o futuro se revela pouco auspicioso, principalmente no que se refere ao trabalho. Basicamente, poderá haver muita exploração, mas falta algo importante: o porto seguro que permitiria o efectivo desenvolvimento.
    Esperando não deixar uma perspectiva demasiado pessimista, coloco apenas uma questão: será que, em breve, a "emerging adulthood" não será regra nas sociedades industrializadas, mesmo após os 30 ou 40 anos?

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  2. Na minha opinião, existe efectivamente a necessidade de classificação do período compreendido entre a adolescência e a idade adulta, uma vez que este período se reveste de uma enorme complexidade e relevância em termos de desenvolvimento.
    Aparentemente, a “lista de coisas” que o indivíduo deveria fazer antes de completar os 30 anos (como verificamos no inicio do texto), poderia parecer ridícula, mas não o será se considerarmos o supra referido período entre a adolescência e a idade adulta como o período da “adultez emergente”.
    Segundo o autor, esta fase é propícia à exploração, ao investimento e à busca do “Eu”, pois é aqui que o indivíduo já não é o adolescente que está sob a alçada dos pais, mas também não é o adulto que tem obrigações estáveis (familiares, amorosas, etc.). Ou seja, a pessoa está disponível para investir, está optimista e quer investir o seu potencial vital em novas descobertas, inclusive a descoberta de si próprio.
    Concordo também com a necessidade de se diferenciar as épocas a que nos referimos. Esta será uma perspectiva ajustada se a focalizarmos nas gerações actuais, pois o mesmo não acontece se o fizermos para as gerações dos anos 1960.
    Segundo Fussell e Furstenberg (2005), são duas as revoluções em que assentam as mudanças das normas sociais que conduzem a transição para a idade adulta: a tecnológica (faz aumentar os tempos de escolarização, e a revolução de género (permitiu a entrada das mulheres no mercado de trabalho e conduziu a uma maior igualdade).
    Observamos agora vários aspectos que não existiam anteriormente, nomeadamente o prolongamento do tempo da escolarização, entrada tardia no emprego originada pela desigualdade entre a procura e a oferta do mercado, insegurança entre outros. E se a idade adulta é socialmente caracterizada por um estilo de vida mais independente, como podem ser independentes jovens que ainda não conseguiram sustentabilidade para sequer sair da casa dos pais?
    Esta prolongação da saída da casa dos pais, tem como objectivo o alcance da estabilidade, de um emprego satisfatório para poder ter uma vida futura (adulta) mais feliz.
    É nesta fase que reside a esperança de atingir os objectivos, daí que haja um maior investimento na formação.
    Mesmo nos relacionamentos amorosos, já existe a possibilidade de experimentação antes de assumir longos compromissos, o que não existia nos anos 1960 em que as normas impostas socialmente eram rígidas e conservadoras.

    Verificamos com isto, que o indivíduo vai tornar-se adulto quando ele próprio se percepciona como tal.
    Ao atingir os objectivos académicos, ao conseguir estabilidade no emprego, e consequentemente ao sair da casa dos pais, é normal que o individuo se sinta mais responsável e independente, e esteja mais apto a considerar-se um adulto, todavia, com o passar dos tempos, esta estabilidade tende a ocorrer cada vez mais tardiamente (nem todos os jovens de 30 conseguem ter estabilidade na sua vida), o que traz também muitos efeitos sociais nefastos.
    Pessoalmente, considero necessária a intervenção na sociedade, controlando o mercado de trabalho (ex. formas de aumentar a empregabilidade), proporcionando incentivos e apoios aos jovens, para que estes atinjam os seus objectivos, reduzam o tempo de idade emergente (que apesar de necessária, não deve prolongar-se demasiado) controlando assim os efeitos negativos e positivos que esta pode trazer para a sociedade.

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  3. De acordo com Arnett, houve uma mudança relativa nos papéis que os jovens tinham por volta dos 22 ou 23 anos, referindo que por esta altura era típico, numa sociedade industrializada, estarem casados, terem pelo menos um filho e um empréstimo de uma casa para pagar. Porém, actualmente a realidade é diferente e houve uma redefinição do modo como os indivíduos se tornam adultos.
    O autor defende que os jovens esperam até ao fim dos seus 20 anos para casar e terem o primeiro filho porque encontram-se focados em obter uma educação superior e define a adultez emergente como uma etapa desenvolvimental distinta, entre o fim da adolescência e o início da idade adulta, entre os 18 e 25 anos onde os jovens já não são adolescentes, mas ainda não possuem as características normativas da idade adulta.
    A tipificação das diferentes fases de desenvolvimento, especificando determinada idade da vida, acaba por definir o lugar social dos sujeitos dentro da sociedade. Cada etapa encontra-se acompanhada por um estatuto que define comportamentos e expectativas, uniformes com os valores da sociedade.
    Nas sociedades industrializadas, marcadas pela globalização, os jovens experimentam hoje um “período de espera” mais longo antes de entrar na idade adulta, porque ainda se encontram a estudar ou porque o mercado de trabalho é precário não lhes permitindo serem auto-suficientes.
    Uma das características identificadas por Arnett no sentido de definir a fase do adulto emergente é a idade da exploração da identidade, período em que as pessoas têm mais probabilidade de poder explorar várias possibilidades para as suas vidas em várias áreas, especialmente no amor e no trabalho. De facto, essa exploração permite a construção de um self mais estruturado do sujeito que procura encontrar a resposta para o “Quem sou eu?”.
    Tipicamente a primeira mudança residencial dos adolescentes surge aos 18/19 anos de idade quando saem da casa dos pais, vão para a faculdade ou pretendem adquirir a independência
    Segundo Arnett, falar em adolescência implica um período onde decorrem mudanças físicas associadas à puberdade e os jovens estão a frequentar o ensino secundário e a residir com os pais de quem são dependentes.
    A vida adulta emergente é responsável pelas suas decisões, mas as diferenças individuais são essenciais para uma melhor compreensão deste fenómeno, porque os jovens nessa faixa etária, são marcados pela sua heterogeneidade.
    Uma crítica apontada na perspectiva do desenvolvimento de Arnett prende-se com o facto de se a adultez emergente surge como consequência do adiamento de tarefas de entrada na idade adulta, esta continua a ter como objectivo a concretização dessas mesmas tarefas.
    Como conclusão, o processo de modernização das sociedades conduziu a percursos escolares mais longos dificultando a inserção profissional dos jovens. As políticas neo-liberais originaram uma massificação do ensino superior proporcionando o adiamento da transição para a vida adulta. As taxas de desemprego têm aumentado nos últimos anos, dificultando a entrada na fase adulta emergente.

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  6. O Desenvolvimento tecnológico das sociedades modernas vem trazendo um progressivo desfasamento comportamental da sociedade. Pode dar-se como exemplo o que se tem passado desde o inicio dos anos 60, até aos dias de hoje. Em contradição com o que era então norma na sociedade, os adolescentes eram já reconhecidos como adultos ou quase a encararem esse papel. O seu papel definitivo na sociedade, no seu ambiente e comunidade, foi típico do adulto, estava já determinado ou mesmo em vias disso. Nessa altura, esta era uma fase em que praticamente se tinha saído da adolescência e já se assumia compromissos de carácter duradouro. A idade variava muito pouco, entre os 18 e 20 anos sensivelmente.
    A verdade é que se exige mais do indivíduo actualmente. O mercado do trabalho é mais complexo, exige mais estudos, mais dedicação, vindo atrasar o comprometimento do jovem com valores típicos da fase adulta: casamento, aquisição de casa própria, etc. No entanto as regras que orientam a passagem para a vida adulta são muito variadas de sociedade para sociedade, no decorrer da História (Hogan et Astone, 1986).
    Se este fenómeno se vem observando nas sociedades ditas industrializadas, não é menos verdade que sociedades mais atrasadas tecnologicamente, ou mesmo pequenas comunidades mais isoladas mantêm ainda uma caracterização da passagem da fase da adolescência para uma fase adulta. Nestas, os jovens assumem precocemente as responsabilidades de uma fase adulta, muito influenciados por valores familiares e da sua própria comunidade.
    É curioso observar a influência que o leque de opções disponibilizadas aos jovens actualmente vem trazendo como consequência. Estes sentem uma incerteza maior quanto ao seu futuro, quando à forma como subsistirão financeiramente, como se posicionarem perante valores que lhes foram transmitidos, nas suas relações amorosas, etc. O facto de cada vez mais o número de jovens mulheres a participar nesta nova “revolução”, com estas a manter a par dos homens um comportamento mais individual, mais independente, vem aumentar as possibilidades de relacionamento amoroso, deixando de haver um padrão tradicional da relação escolhida pelos familiares.
    Estamos na verdade numa fase em que a sociedade, na faixa etária que caracteriza o “adulto emergente”, relativiza determinados eventos que marcavam as transições na vida do indivíduo. A finalização dos estudos secundários não é agora uma etapa para a fase seguinte, a do matrimónio. O jovem sente que necessita de uma evolução na sua estabilidade, fornecida por estudos a nível universitário e pós universitário. É curioso verificar-se que com esta continuação da vida académica, também se verifica uma maior independência dos jovens face aos seus pais, com alguma responsabilização das suas acções, maior responsabilização financeira e uma possibilidade de busca de uma relação. No entanto, estes “adultos emergentes” não se sentem ainda capacitados para uma tomada de responsabilidades maiores, preferindo continuar a sua exploração de novos sentimentos e da descoberta do seu EU.

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  7. São já perfeitamente identificáveis vários sinais da mudança de atitude destes novos “adultos emergentes”. A diminuição demográfica nas sociedades modernas, típica de uma tomada de consciência que a vida é mais complexa actualmente, havendo menos tempo para a dedicação à família, é talvez a maior delas. A competitividade do mercado de trabalho vem igualmente exigir mais do jovem adulto emergente, levando-o a adiar cada vez mais compromissos duradouros e empenhando-o numa continuação do aprendizado e numa maior labuta pela sustentabilidade financeira.
    Reportando-nos para o contexto nacional, existem já vários estudos demonstrativos de que com a massificação do ensino superior alterou significativamente os trajectos e projectos dos jovens portugueses, proporcionando o adiamento da transição para a vida adulta, amplificam as expectativas em relação ao futuro, causando uma maior diversificação do perfil social dos jovens (Guerreiro e Abrantes, 2004)

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  8. Na história da Psicologia do Desenvolvimento, diversos autores (Freud, Piaget e Erikson), a partir de pressupostos psicossociais, foram organizando o ciclo vital em etapas mais ou menos estanques. Por sua vez, os limites das etapas de transição de desenvolvimento humano, historicamente, tem sido também influenciada por questões, sociais, culturais e mesmo legais. Legalmente, o conceito de maioridade está intimamente relacionado com adultez. Do ponto de vista social, o adulto traduz-se pela sua valorização social, muito ligado às dimensões trabalho (capacidade de produção), família (constituição familiar) e paternidade (reprodução).
    Numa revisão pela literatura mais recente, centrada na problemática de transição para a idade adulta, verificamos que é unânime considerar que por vários factores, a etapa de transição adolescência - adultez se alargou em larga escala nos últimos anos. Há mesmo autores (como é o caso de Arnett, 2006) que vão mais longe, propondo mesmo que este prolongamento entre a adolescência e a idade adulta poderá/deverá corresponder a uma nova etapa de desenvolvimento humano, que o autor designa de “emerging adulthood”. Apresenta o autor 5 características que permitem classificar esta “etapa de pré-adultez”: a idade de exploração da identidade; a idade da instabilidade; a idade de auto-concentração / discernimento; a idade de se sentir integrado; a idade das possibilidades. Face à classificação do autor, diversas considerações podem ser feitas (aliás o próprio autor chama a atenção para a questão da Heterogeneidade), contudo não centraremos a nossa discussão das características que podem ou não caracterizar esta pseudo-etapa do ciclo vital, mas sim a pertinência da sua proposta.
    A sociedade pós-moderna ou a modernidade líquida (na proposta de Bauman) é frequentemente caracterizada por uma época de incerteza, de desconforto que se verifica nas várias dimensões de vida, entre as quais se destaca o trabalho. Actualmente a noção de ´”trabalho para a vida” caiu completamente por terra. A dificuldade do nosso sistema produtivo absorver os jovens-adultos (em particular os jovens licenciados) associado aos trabalhos precários de curta-duração, gerou uma nova realidade, em nossa opinião, característica de um ciclo de desenvolvimento humano. Indissociavelmente, a dimensão trabalho surge-nos como estruturante. Aliás, alguns autores estabelecem a entrada na idade adulta como: a capacidade de atingir a auto-suficiência, indiscutivelmente associado à noção económica, que por sua vez, directamente associada ao trabalho.
    Nas últimas décadas temos assistido a uma proliferação da entrada de alunos no ensino superior. Na perspectiva de Elliott e Lemert este facto é consequência directa das políticas Neo-liberais e fruto na privatização. Este momento corresponde para muitos adolescentes, jovens, jovens-adultos, à “primeira saída” de casa dos pais, embora vivendo ainda na dependência destes. A conclusão da formação, e face às dificuldades de colocação no mundo laboral, corresponderá, para muitos, ao retorno do jovem-adulto à casa dos pais. Esta tardia entrada no mercado de trabalho e saída de casa dos pais condiciona, em última instância, uma tendência tardia para o casamento e para a parentalidade (note-se que alguns autores referem-se à concretização das seguintes etapas de transição como entrada na idade adulta, salvaguardando a devida heterogeneidade: a finalização dos estudos, a entrada no mercado de trabalho, a saída de casa dos pais, o casamento e a parentalidade). Pensámos portanto, que na era da modernidade líquida, com o alargamento da concretização das fases anteriores, estaremos em condições de analisar um nova dimensão de desenvolvimento humano, que se segue à adolescência e antecede a idade adulta, que não é uma nem outra, com características muito próprias.

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